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26 de março de 2013

Lançamento do Fanzine Nonada

 

Os Cabrones Logo Fotozine Nonada - Foto Emerson Silva (17)Fotozine Nonada - Foto Emerson Silva (3)Fotozine Nonada - Foto Emerson Silva (14)Fotozine Nonada - Foto Emerson Silva (2)Fotozine Nonada - Foto Emerson Silva (1)

Fotos: Bento

Coletivo Os Cabrones

Há muito tempo, quer dizer, em todo o tempo, nós, artistas, vimos e vemo-nos amargar atrasos nos mais variados sentidos. Aqui no Tocantins o cenário é bem mais crítico. Ser artista no Brasil é e sempre foi complicado. Em nosso estado tal situação pode ser somada e multiplicada por dois. Em todos os segmentos, em todas as vertentes, parece ser imperativo de que, por estas bandas, cada um deve ficar na sua, no seu quadrado, cuidando da sua vidinha, do seu trabalho, dos seus projetos e que o resto... todo o resto que se vire e dê seu jeito, ora bolas.

Mas a prática vem mostrando que esse modelo de “cada um na sua” não tem dado muito certo. A maioria dos projetos nem sequer chega a sair do papel, e quando sai, boa parte deles sofre de limitações técnicas, que, num contexto de cooperativismo (em que temos  pessoas contribuindo com as suas potencialidades e saberes para o desenvolvimento de determinada coisa) muito certamente, esses problemas se existissem, seriam numa escala bem reduzida.

“Foi numa viagem a São Paulo, em dezembro de 2011, que percebi o quanto poderíamos agir diferente no Tocantins (Com a criação do coletivo Os Cabrones, para unir desenhistas, ilustradores, cartunistas e quadrinistas residentes não só em Palmas, mas no Tocantins de um modo geral). Num determinado evento, conheci artistas e coletivos. O argumento deles foi unânime: lá, as dificuldades eram até maiores, pelo volume de artistas e competitividade do mercado, mas a diferença estava no fato de que eles se uniam para batalhar por direitos comuns”, pontuou Thiago Ramos, jornalista, cartunista e um dos fundadores do coletivo “Os Cabrones”.

“Essa ideia de se juntar por aqui já vinha sendo nutrida em separado. A partir da 1° Exposição de Quadrinhos e Ilustrações de Palmas, no início de 2013, que foi coletiva, é que finalmente decidimos começar um grupo de trabalho, dividindo funções e estabelecendo metas. A primeira deliberação foi a criação de um fanzine coletivo, e a partir dele, que funcionaria como portifólio e espaço de experiência, onde também adquiríamos ritmo de trabalho, iríamos ganhar solidez para encabeçar outros projetos solo”, disse Daniel dos Santos, jornalista e membro do grupo.

 Fotozine Nonada - Foto Emerson Silva (33)

Foto: Bento

O fanzine Nonada

O produto coletivo em questão chama-se “Nonada”. Este zine sairá, a princípio, de forma independente, com seus exemplares obtidos por meio de fotocópias. Produzido de maneira artesanal, com contribuições dos membros do coletivo e de quem mais se interessar. No formato de folhas A4 dobradas ao meio, terá uma periodicidade mensal e será comercializado a preço simbólico, em pontos diversos de Palmas e eventos também pelo interior, a medida que as cópias dos exemplares sejam suficientes.

A primeira edição - número zero - tem tiragem inicial de apenas 200 exemplares e tem poemas, quadrinhos e ilustrações dos colaboradores Adriano Carvalho, Ciro Gonçalves, Daniel dos Santos, Diogo Teixeira, Flamarion Cunha, Geuvar Oliveira, Marcus Mesquita, Paulo Roberto e Thiago Ramos. O lançamento será nesta quarta-feira, 27, no Açaí.com localizado na Av. LO 05, 306 Sul (antiga Arse 32) em Palmas. O fanzine será vendido no local por R$ 3, e as pessoas também podem fazer contato através da página do coletivo no facebook.

 

FANZINE NONADA 2013

Capa: Flamarion Cunha

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22 de fevereiro de 2013

Literatura de banheiro

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Quem nunca leu no banheiro não sabe o que é o prazer da leitura.

Desde pequeno leio alguma coisa quando vou besuntar a porcelana. ”Mãããe, traz uma ‘bibitinha da Mônquina’” e lá ia folhear uma revistinha inteira sem nem ao menos saber fazer um “o” com um copo. “Mãe, acabei!”, isso valia para as duas obras. Tava “tchau” para o coco e ia continuar a brincar.

Minhas lembranças e contos de infância se misturam com as do meu irmão mais velho. Porém coloco aqui como sendo todas minhas por mera conveniência estética.

Com o passar dos anos detectei um padrão para esse tipo de literatura. Uma boa literatura de banheiro é aquela que dispõe uma leitura rápida, concisa e profunda, daquelas que bate no fundo e respinga na bunda. Tal qual haicais de porta de banheiro público, um exemplar de literatura de banheiro tem que te fazer passar o tempo de alguma forma leve.

A necessidade de dormir e a necessidade de fazer necessidades se unem no prazer da leitura. Assim como o famigerado livro de cabeceira, o objeto da literatura de banheiro é aquela obra que te acompanha na sua privacidade e aos poucos vai se tornando um clássico (CALVINO, 2004).

Eis alguns dos meus clássicos:

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O Livro da Filosofia: as grandes idéias de todos os tempos

Anna Hall, Sam Atkinson, Cecile Landau, Andrew Szudek, Sarah Tomley - 352 páginas - Editora Globo.

Breve panorama da obra de grandes filósofos antigos e contemporâneos com esquemas explicando suas principais idéias e influências. Tudo isso com uma diagramação inteligente e criativa e ilustrações precisas.

Veja também: O Livro da Psicologia.

 

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As Cobras: antologia definitiva

Luis Fernando Veríssimo - 200 páginas – Objetiva.

As cobras dão pitaco sobre tudo: futebol, política e religião. Humor pastelão, consciente e filosófico de Luís Fernando Veríssimo nesse formato pouco conhecido do escritor (e cartunista).

Veja também: A cabeça é a ilha.

 

 

1021601-250x250O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr Fernandes

Millôr Fernandes - 195 páginas - L&PM POCKET.

A capa logo alerta “Documento que revolucionou todo o pensamento ocidental! Um verdadeiro orgasmo filosófico”. De aforismos a conversas no Bar do Veloso, estão editadas diversos pensamentos desse que foi um dos maiores livre-pensadores brasileiros.

Veja também: Millôr Definitivo: a bíblia do kaos.

 

 

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Dicionário de Sentenças Gregas e Latinas

Renzo Tosi - 904 páginas - Martins Fontes.

“10.000 citações da Antiguidade ao Renascimento no original e traduzidas com comentário histórico, literário e filológico”. Se você quer mais informações que essa para ter interesse no livro, você é indignus est qui illi calceos detrahat.

Veja também: Dicionário Houaiss Ilustrado: Música Popular Brasileira.

   

 

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Ostra feliz não faz pérola

Rubem Alves - 280 páginas - Planeta do Brasil.

O autor adverte que aforismos, bem como as idéias são como pássaros que pousam sem de repente no seu ombro. É preciso logo tomar nota antes que voem e nunca mais apareçam. Rubem Alves fez isso e podemos conferir belos passarinhos que ele nos pinta com seus textos.

Veja também: Educação dos Sentidos e Mais...

 

 

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18 de junho de 2010

Morreram

Rememorando Drummond ao relatar a morte da Atriz Cacilda Becker, parafraseio:

A morte emendou a gramática.
Morreram José Saramago.
Não era um só. Era tantos.

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José Saramago nunca aparece sorrindo. Mal de escritor famoso. Poucos são aqueles que esbajam bom humor fora de seus livros. O Saramago que eu li, sorria.

Poderia invocar todos os outros cânones da Literatura, poderia falar de sua peculiar prosa, poderia esmiuçar a nossa afinidade com o desenho, poderia criticar seu abandono às gramáticas e outras formas de prisão. Ou não. Poderia dizer que ele era o penúltimo comunista vivo - resta Niemeyer. Poderia falar sobre suas obras, dizer que essa sua predileção por remasterizar textos bíblicos o fez um ateu devoto. Saramago fazia sua própria bíblia. Poderia relembrar seu cabedal de ditos populares prontos à reluzir. Poderia dizer que aquele senhor já se foi tarde. Um senhor de oitenta e todos os anos que vivia numa ilha distante. Poderia dizer que é uma pena ele não acreditar em Céu (nem beleléu) para que um dia eu o encontrasse cercado de pessoinhas para o ouvir contar stórias. Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante da dimensão desse tamanho ocorrido. Simplesmente digo adeus ao vovôzinho que dá boa noite, fecha o livro, e se vai.

12 de junho de 2010

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19 de maio de 2010

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17 de maio de 2010

Domingo no Paraíso

Com uma semana de antecedência descobri na UFT-Palmas através de um panfleto (de má qualidade por sinal) que teria show gratuito do Oficina G3 no domingo seguinte (01/05) em Paraíso do Tocantins, cidade a cerca de 60 km da capital.

Quando quero uma coisa sou rápido na hora de listar motivos a mim mesmo para persistir e conseguir. O principal deles é que embora Palmas não seja lá muito merecedora do status de capital, ambiente de interior a cidade também não tem, e eu sinto falta de me relacionar com pessoas que tenham aquela prosa mais descompromissada, menos pautada pela grande mídia. Ver um lugar onde as crianças brincam nas ruas também, não só nos computadores. Um lugar onde ir a sorveteria é um programa realmente especial.

Outro motivo era ver pela primeira vez um show do Oficina G3, que eu nunca tinha dado atenção por conta do preconceito com o rock cristão, até começar a trabalhar na agência em que estou atualmente, e meu amigo Ivan Paes obrigar a todos do departamento de criação a ouvir qualquer ritmo com sobrenome gospel. Meu instinto de sobrevivência fez com que eu desenvolvesse senso crítico para isso também, e tive de atestar a qualidade do álbum “Depois da Guerra”, lançado pelo Oficina em 2008. Som pesado que remete ao thrash metal do Metallica mesmo com vocais limpos. Chama muita atenção o baterista, e o super guitarrista Juninho Afram, considerado um dos melhores do Brasil independente do estilo. Se todos esses motivos não fossem suficientes, só o fato de fugir do desagradável calor palmense era argumento de sobra, né? Afinal lá é serra.

Empolgação garantida para que eu não desistisse da idéia, faltava contagiar outras pessoas que eu gostaria de levar comigo. Convidei a Paula (razão de viver) e os parceiros de blog para essa aventura em Paraíso do Tocantins. Além destes, divulguei o show na comunidade do Tendencies Rock para que outros não perdessem o evento por falta de informação, e intimei o abençoado Ivan Paes. A semana correu, e na hora de ir mesmo, só minha eterna companheira foi junto. Após uma hora de ônibus por apenas 8 reais, chegamos na rodoviária às 16h30, e com duas opções de estadia: a casa da família da Paula, ou a casa do amigo, parceiro de rock e faculdade Fernando - The Big Dog!

Da rodoviária já aproveitei uma das grandes vantagens de se estar numa cidade do interior: ir a pé a qualquer canto. A primeira parada foi na visita aos parentes da Paula. Algum tempo depois sentimos que a gente estava em um clima fora de sintonia com o ambiente da casa e o ritmo das pessoas. Liguei pro Fernando, que estava no meio do ensaio com sua banda, Poetas do Caos, e nos chamou para chegar ao Museu Cora Coralina, que funciona como o Centro de Criatividade do Espaço Cultural de Palmas. Em tempo, vimos as três últimas músicas do ensaio, e descobrimos os pequenos erros que durante os shows passam despercebidos, mas que causam repetições no ensaio.

Com eles, a gente tava em casa. Em Palmas seriam Fernando, Cláudio, Alexandre e Ênio. Na tradição de quem cresce junto em cidade do interior, são reconhecidos por outros nomes de batismos secundários: Cachorrão, Macagi (sobrenome que virou nome), Gago e Formiga. A galera que trabalha pela cultura de Paraíso, remunerados ou não, através do ponto de cultura Oficina Geral.

Nesse período da tarde já estava na fissura por GLICOSE (que merda de escritor pseudo-beatnik que eu sou? Qualquer um teria feito questão de colocar em negrito e caixa alta que estava na fissura por qualquer substância um pouquinho menos saudável). Como não podia deixar de ser, o pessoal levou a gente pra dar uma passadinha na lanchonete/sorveteria do Paulinho. Enquanto na tv o Santo André pressionava o Santos por 3x2 na final do Paulistão, a Paula e eu curtíamos os deliciosos milk shakes de chocolate e baunilha, respectivamente, por R$ 2,50 cada.

Satisfeitos, o Macagi nos convidou para visitar a casa em que mora com sua mãe, localizada no pé da serra. O Fernando disse que era “um pouco perto” dali e que poderíamos ir a pé, mas dotado de mais experiência e bom senso, Macagi chamou um táxi que nos deixou na porta da casa dele por apenas R$ 6, sem taxímetro. Se era mesmo “pouco perto”, nem discuto, mas fato é que no fim do trajeto tinha uma desafiadora ladeira muito íngreme e cumprida. Estrelinha na testa do Macagi!

Éramos cinco nesse momento: Paula e eu, Macagi e a namorada Vanessa, e o Fernando. Na esquina, uma placa artesanal indica a sede da Oficina Geral, que funciona na casa do Macagi e oferece lan-house, biblioteca e oficinas de música, artesanato e poesia. A casa do cara é fantástica! Realmente fica no pé da serra, rua sem asfalto, poucas casas próximas e mata nativa por todos os lados e todo tipo de pássaro nas árvores. O quintal fica na parte da frente da casa, e só é cimentado o caminho a ser percorrido que parece um circuito com pequenos ambientes onde podem ser feitas rodas de conversa e/ou violão, ou até mesmo para momentos mais introspectivos onde a gente se imagina lendo e refletindo sobre qualquer coisa com uma paz absurdamente desconectada do mundo que se explode lá fora.

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Todos os bancos espalhados por esses ambientes são feitos artesanalmente pelo próprio Cláudio. (Agora que eu conheço a casa do cara, já tenho intimidade para chamar pelo próprio nome). O que mais chama a atenção é uma casinha também feita pelo Cláudio com madeira doada pelo Naturatins. Semelhante ao sonho de todo garoto - uma casa na árvore - serve como refúgio, e por dentro é cheio de livros, quadrinhos, discos, cds, fitas k7, uma máquina de escrever e até um livro de matemática com o menino Ferrugem na capa. A Paula perguntou se as pessoas podem pegar os livros emprestados como nas bibliotecas. O Cláudio respondeu que sim mediante um cadastro, mas que a maioria das pessoas vai para ler por lá mesmo.

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Claro, com um ambiente aconchegante daquele! Sem contar que por fora ainda tem uma escada que dá acesso ao teto da casinha como se fosse um terraço. É ver para crer!

Imagem0174O cara vive quase no meio do mato e não tem animais? Tem sim. O único cachorro é o Amarelo, que veio já adulto para a casa do Cláudio, e diz através do couro cheio de cicatrizes o quanto de apuros já teve de passar nesse mundo cão. Há pelo menos uns cinco gatos oficiais da casa, sendo dois adultos e três filhotes da Tsu, abreviação de Tsunami, que foi justificado após a gata nos acompanhar em todo o trajeto na subida da escadaria da serra que dá acesso a uma capela. Lá em cima, o Cláudio me contava com empolgação quais eram seus planos para aquele lugar, enquanto eu lamentava internamente que os cargos de gestão pública, pelo menos no Tocantins (prefiro imaginar que em outros lugares não é assim), não são ocupados por quem tem as melhores idéias e intenções para pôr em prática.

Papo vai, papo vem, anoiteceu e a fome começou a coçar a barriga quando o Cláudio nos ofereceu um jantar. Ficamos na dúvida porque tínhamos combinado de dormir na casa do Fernando, e eu não sabia se a mãe dele tinha se preparado para nos receber, se iríamos causar algum incômodo, sei lá... e o Fernando dizia sem nenhuma segurança que achava que a mãe dele tinha preparado algo para nós. Na dúvida, a gente preferiu recusar o convite do Cláudio e poupá-lo de cozinhar para nós, e pegamos um táxi para conhecer a casa e a família do Fernando.

De volta ao centro de Paraíso, após dois anos e meio estudando com o cara, finalmente conheci a família dele. Não vou lembrar todos os nomes agora, até porque sempre chamarei de pai do Fernando, mãe do Fernando, irmã do Fernando, e as crianças sobrinha do Fernando (Maria Clara eu lembrei!) e o sobrinho do Fernando. No fundo da casa, um quintal enorme com animais assim como na casa do Cláudio: galinhas, gatos e patos. E o melhor de tudo: uma mesa linda com comida caseira caprichada. Caseira aqui está empregada no sentido de temperos de sabores fortes. Feijão com coentro, purê de batatas com gostinho de manteiga, carne assada no forno com sal no ponto que eu gosto, além de tomate picadinho com repolho e abacaxi e melancia de acompanhamento final. Comi até ficar com aquela tristeza de satisfação. Ahhh vontade de voltar no tempo e aproveitar mais. E pensar que o Fernando quase fez a gente dispensar o que a mãe dele tinha preparado para gente.

Após a refeição, enquanto via o Fernando revivendo seu passado de basqueteiro brincando com a sobrinha de quatro ou cinco anos, praticamente exigi que a mãe dele cumprisse o papel de mãe e nos mostrasse aquele álbum dele de fotos na infância com cabelo jogadinho pro lado ou para trás, camisa por dentro do shorte e a bochecha chamando mais atenção que tudo. Que graça teria se eu conhecesse a mãe dele e não visse aqueles olhos brilhando de recordações que vinham de antes mesmo do menino pegar a fama de cachorrão na escola? Aliás, apesar da minha insistência, ainda não há explicações sobre o apelido. Suspeito que tenha origem semelhante a Bauducco.

Tomamos banho, assistimos ao Pânico na TV pela tv à cabo, programa que eu não via há muito tempo. No quarto dele, muitos pôsteres de seus ídolos na guitarra estavam ali na parede, certamente para inspirar seus melhores sonhos.

Ah, ainda tinha o show do Oficina G3, o tal motivo para que eu estivesse na cidade. O ex-companheiro do Fernando no programa de rádio Confraria do Rock, Erivélton, passou lá para nos acompanhar até o local do show, no caminho nos somamos a namorada do cachorrão, Darlene.

Chegando à Praça da Saudade, que tem esse nome porque fica de frente ao cemitério, já acontecia o show playback do cantor gospel Mattos Nascimento em uma estrutura de palco bacana. Eu só tinha a informação pelo Cláudio, de que o cara tinha participado do Paralamas do Sucesso na época do disco “Selvagem”, e que atualmente era um vendedor de cds. A princípio desconfiei do que ele quis dizer com o termo, até o momento em que durante o show vi o pilantra dizer exatamente com estas palavras: “Pessoal, para quem gosta destas músicas que trazem a palavra do Senhor, tem uma banquinha aí no meio com os meus cds sendo vendidos. Compre o cd original. Quem compra cd pirata, Jesus não abençoa. Eu já estive sem condições de comprar cd original, e sabe o que eu fiz? Orei e pedi a Deus que me desse condições de comprar cd original.”

A pilantragem não parou por aí. O show foi bancado pelo Ministério do Turismo, ou seja, dinheiro do contribuinte. No entanto não pertencia a nenhum evento específico e nem comemorava data sequer. Ninguém sabia direito o porque estava acontecendo aquele show. Mas era só observar as faixas espalhadas pelo local com os dizeres: “o Deputado Vicentinho apóia a música”. Ah sim, era um showmício. Tudo bem Mattos Nascimento, a gente entende você improvisar uma rima com Vicentinho nas suas músicas sopradas pelo Espírito Santo (não o geográfico, o religioso). Esse tem carreira artística promissora em todo o interior do país.

Na outra ponta da praça, o bar estava movimentado também, e foi lá que confraternizamos com os outros Poetas do Caos até dar a hora do Oficina G3 e o som das guitarras pesadas espantar mais da metade do público presente. Começaram o show direto pela música “Meus Próprios Meios”, que é a música que mais me empolga deles. Todo o show seguiu essa linha pesada, exceto no momento em que eles tocaram a radiofônica “Te Escolhi”. A banda causou excelente impressão sobre a qualidade profissional deles tanto musicalmente quanto aos momentos pensados que ocorrem durante o show. Até mesmo a pregação do Juninho Afram, que era um momento temido por mim, surpreendeu pela honestidade do discurso, sem forçar a barra. Eles são cientes que apesar de serem uma banda cristã, o show não é voltado só para esse tipo de público. Não fui convertido, mas em nenhum momento me senti incomodado como quando ouço discursos hipócritas. Grande banda!

Voltamos para dormir na casa do Fernando, e no dia seguinte viver mais uma aventura: acordar cedo para ir até a saída da cidade e conseguir carona para nós três até a UFT/Palmas e chegar a tempo na aula de volta a rotina. No meio disso, uma situação curiosa: vários Uno passavam por nós e nos ignoravam carona. Até uma veterana do curso de jornalismo nos ignorou. Outro veterano que também veio pegar carona uns dez metros antes da gente conseguiu em menos de um minuto que chegara ao ponto, enquanto já estávamos há quase 30 minutos esperando. Quando tudo parecia piorar, um carro executivo tipo um Tucson ou algo semelhante apareceu, e eu comentei: “só de raiva a gente vai conseguir carona nesse carro aí!” Deu certo! Esticados em bancos de couro no ar-condicionado a 140 km/h, nem sentíamos nada além de sono enquanto nosso caronista ultrapassava todas as caronas dispensadas e nem fazia questão de puxar qualquer assunto com nenhum de nós.

Fotos por Paula Serreal

29 de abril de 2010

Congratulando

23 de abril de 2010

Como você lê?

11 de abril de 2010

Matarte no Salão #5: O “descobrimento” do Miniconto

Muita gente já cansou desse papo de Salão do Livro, mas dentro do que eu pude presenciar, seria injusto encerrar a série Matarte no Salão sem publicar algo para compartilhar com vocês sobre aquela que foi a grande novidade desta edição pra mim: o formato literário de minicontos.

No mesmo dia e horário em que muita gente se candidatou a uma vaga no auditório central para ver a palestra de Ariano Suassuna, eu me programei antecipadamente para assistir no espaço jovem a palestra do gaúcho Marcelo Spalding sobre Literatura Digital, que principalmente pelo tesão que tenho de escrever para este blog, passou a ser um tema de grande interesse da minha parte. Afinal não quero escrever sobre as notícias do último minuto aqui. Quero apenas aprender cada vez mais a escrever textos que possam ser lidos hoje ou daqui a uma semana, um mês, um ano, que ainda serão interessantes.

Com 20 anos de idade, eu era um dos mais velhos dentro do local. Isso me surpreendeu, mas acostumado a escrever para o público juvenil, Marcelo Spalding prontamente direcionou o discurso da palestra para a geração que lê no máximo, Crepúsculo. Apesar de ter de filtrar boa parte do conteúdo da palestra, ele ainda conseguiu prender a atenção interagindo diretamente com a plateia. Até que da metade pro final, não teve jeito, nem que soltassem uns 30 Nardoni teria como impedir a molecada que GRITAVA e corria para todos os lados.

Com muito esforço, fiquei até o fim da palestra, e fui conversar com o escritor na tentativa de absorver um pouco mais do conteúdo que ele mesmo admitiu que não pôde passar nem metade do que estava previsto. Em uma breve conversa, ele me deu o seu livro de minicontos. Basicamente, este foi um momento fundamental daqueles em que as luzes são direcionadas para quem está recebendo um prêmio em cima do palco diante de muitas pessoas, ou até mesmo quando brilham os olhos de alguém que assiste televisão pela primeira vez após vários anos de vida. Assim me senti ao ser apresentado ao formato.

A experiência de ler minicontos é vital para quem quer manter o hábito da leitura, mas não consegue se concentrar em longos textos por conta da vida corrida entre trabalho, estudos, namoro e excesso de informações pela internet. Esse estilo de contar alguma história ainda é pouco discutido, todavia ele tem algumas pré-definições que podem ajudar a identificá-lo: são textos curtos que embora não seja regra, geralmente variam de uma frase até no máximo 100 palavras; possui narrativa com começo, meio e fim assim como um conto qualquer, no entanto costumam ser textos riquíssimos nas entrelinhas, que o levam a ser chamados também de poema em prosa ao conduzir e provocar reflexões no leitor pela subjetividade, fazendo com que o texto deixe de ser “mini” na cabeça do leitor.

Ainda que possua uma estética moderna e ideal para os dias atuais, os minicontos não são tão recentes quanto se pensa, e já consagrou o escritor hondurenho Augusto Monterroso nos anos 60 como o principal escritor do estilo, e tem Ernest Hemingway como o autor de um dos minicontos mais famosos: “Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”. No Brasil, Dalton Trevisan é considerado o pioneiro do estilo com o livro “Ah, é?”, publicado em 1994. Em 2004 foi lançado o livro “Os cem menores contos do século”, contendo textos breves escritos por 100 autores como Moacir Sclyar, Millôr Fernandes e o mesmo Dalton Trevisan, convidados especialmente para a publicação.

Se tivesse de indicar a leitura de minicontos para públicos específicos, recomendaria para quem gosta de poesia, ou de histórias bem contadas, ou de ler no ônibus, ou de ler pouco, ou de ler tirinhas, ou de twitter, ou até mesmo de mensagens publicitárias. Esqueci de alguém?

Para começar (e encerrar este texto), recomendo Marcelo Spalding, que recomenda Leonardo Brasiliense e Ana Mello.

“Helena é virgem desde que o pai sumiu de casa.”

Marcelo Spalding

“O atendente da farmácia viu que eu entrei meio sem graça. Sorriu, malicioso. Eram dez da noite, e eu não tinha cara de doente. Ele até olhou para a porta, como procurando mais alguém. Quando cheguei perto da gôndola das camisinhas, o bobalhão desviou o olhar de mim, disfarçando muito mal. Fingiu que arrumava uns folders em cima do balcão, mas sempre com o sorrisinho idiota, que só parou, só se fechou quando pus na frente o pacote de fraldas.”

Leonardo Brasiliense

“Suicidou-se. Não quis esperar um fim que já era certo desde que nasceu.”

Ana Mello

Marcelo Spalding é um jovem escritor de apenas 27 anos, mas que recebeu seu primeiro prêmio com 11 anos de idade através do concurso Jornalista Por Um Dia, do jornal Zero Hora. Jornalista diplomado em 2005, é autor de 5 livros nas categorias juvenil e adulto. Atualmente é vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores.

Trechos do conteúdo deste texto foi garimpado da dissertação de mestrado de Spalding disponível aqui.

23 de março de 2010

Matarte no Salão #2: Oco do Mundo e outros lançamentos literários

Após o encontro da nossa equipe na primeira noite do 6° Salão do Livro do Tocantins, me propus a cobrir o lançamento do livro “Histórias da História de Gurupi” só pela simpatia que eu tenho pela cidade após duas visitas recentes para cobrir festivais de rock.

Os lançamentos dos livros acontecem no Café Literário de forma coletiva. Graças a isso, tive a oportunidade de presenciar uma mesa composta por alguns dos principais escritores tocantinenses como o homenageado do Salão, o ex-prefeito Odir Rocha, o presidente da ATL – Academia Tocantinense de Letras, Eduardo Almeida, os professores universitários Osmar Casagrande e João Portelinha, além é claro, dos autores que estavam lançando livros: Belinha, Juarez Moreira Filho e Zacarias Martins. Gente madura que representa a produção intelectual do nosso Estado, mas que infelizmente ainda não fazem parte da realidade de jovens interessados em cultura, como eu, por exemplo.

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Perdi um pouco da apresentação da poeta Belinha, mas fiquei impressionado com um poema dela interpretado pelo Casagrande, que falava sobre como ela gostaria que a lembrassem após sua morte.

img_1830O meu motivo de estar ali era ouvir direto do autor algumas das histórias curiosas da cidade de Gurupi. No entanto, vacinado contra gente desinteressada, Zacarias Martins poupou muitas palavras em uma apresentação que mal chegou a dez minutos. Ainda sim, coletei algumas informações para passar adiante. O livro é uma coletânea de crônicas sobre fatos pitorescos da história de Gurupi desde 1986, como o caso exemplificado por Zacarias, quando um mal entendido em uma ligação telefônica provocou o falso alerta de que houvesse uma bomba explosiva na Caixa Econômica Federal de lá. Zacarias Martins pertence à Academia Gurupiense de Letras, publica crônicas em jornais da cidade, e também em seu blog. Sua amiga Marilda, também escritora de Gurupi, o define como “um homem que o que tem de pequeno, tem de inteligente para contar boas histórias”.

Decidi ficar até o final das apresentações, e pude presenciar o lançamento duplo do escritor Juarez Moreira Filho, que sabiamente, convidou Odir Rocha e Portelinha para falar de cada um de seus livros. O mais curioso foi a definição que Portelinha atribuiu a um dos livros como “descritivo pictorialista”. Quase um palavrão como ele mesmo disse, mas o nome do livro em questão era bem mais simples (e genial): “Oco do Mundo”.

Os livros estão disponíveis para compra no estande da ATL – Associação Tocantinense de Letras. “Histórias da História de Gurupi” continuará a venda na GEP Livraria mesmo após o Salão do Livro no valor de R$ 15.